Rio de Janeiro · Quinta-feira, 10 de setembro de 202627°
Correio Rio
Brasil

Mendonça homologa delação que detalha caminho de dinheiro até filme sobre Bolsonaro

Relato de Antônio Carlos Freixo Júnior coloca transferências de mais de US$ 12 milhões ao Havengate no centro de uma nova etapa da investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”

Por Redação Correio Rio · RedaçãoPublicado · Atualizado
André Mendonça homologou delação de empresário ligado ao caso do filme sobre Bolsonaro
Ministro André Mendonça homologou a delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro.Brenno Carvalho

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou nesta quarta-feira (9) a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, empresário apontado nas investigações como operador financeiro de Daniel Vorcaro. O acordo coloca sob análise um novo conjunto de informações sobre a movimentação de recursos destinados ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.

O principal elemento revelado pelo colaborador é o relato de que ele realizou transferências de pouco mais de US$ 12 milhões para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, estrutura utilizada para receber recursos destinados ao longa. Pela cotação informada nesta quarta-feira, o montante corresponde a cerca de R$ 61 milhões.

A homologação não encerra a investigação nem transforma automaticamente as declarações do delator em fatos comprovados. A decisão de Mendonça permite que as informações prestadas por Freixo Júnior sejam utilizadas formalmente no processo e confrontadas com documentos, registros financeiros e demais elementos já reunidos pelas autoridades.

O que a delação acrescenta à investigação

O ponto de maior relevância do acordo está menos no valor isolado e mais na possibilidade de reconstruir como o dinheiro saiu do circuito financeiro ligado a Vorcaro e chegou a uma estrutura nos Estados Unidos relacionada à produção do filme.

Freixo Júnior afirma ter atuado como operador financeiro de Vorcaro e relata que, em determinado momento, passou a receber solicitações para realizar operações consideradas por ele fora dos procedimentos convencionais. Entre elas estavam transferências sem lastro e obtenção de dinheiro em espécie.

Uma das empresas utilizadas nas movimentações, segundo as informações atribuídas à investigação, foi a Entre Investimentos e Participações. É por meio dessa estrutura que aparecem os repasses ao Havengate, estabelecendo uma conexão financeira que agora passa a ser examinada também a partir do relato de quem afirma ter participado das operações.

Esse aspecto ganha importância porque a investigação do caso Master já vinha buscando identificar não apenas quem movimentou os recursos, mas quem efetivamente se beneficiou das operações e qual foi a finalidade de cada transferência.

O caso envolvendo Daniel Vorcaro, o Banco Master e integrantes do STF ampliou esse questionamento nos últimos meses e passou a envolver diferentes frentes de investigação.

O dinheiro e o financiamento de “Dark Horse”

O Havengate Development Fund aparece como uma peça intermediária na trajetória dos recursos destinados ao filme. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado apontado como ligado a Eduardo Bolsonaro.

É justamente nesse ponto que a delação exige cautela. Freixo Júnior afirma que fez os repasses, mas não diz conhecer o destino final do dinheiro depois que os recursos chegaram ao fundo. Segundo as informações divulgadas sobre o acordo, ele também não sabe afirmar se os valores beneficiaram Eduardo Bolsonaro ou outro aliado do ex-presidente.

Portanto, a delação, isoladamente, não permite concluir que Eduardo Bolsonaro tenha recebido os recursos. O que ela acrescenta é o relato de uma pessoa que afirma ter participado da etapa de transferência do dinheiro e que agora pode ser confrontado com a documentação financeira.

Antes mesmo da colaboração, documentos e registros financeiros já haviam apontado movimentações milionárias para o projeto. Em setembro, uma apuração baseada em relatório do Coaf indicou que os valores conhecidos enviados por Vorcaro ao fundo haviam chegado a aproximadamente US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 63,7 milhões pela cotação utilizada na reportagem.

A nova delação, portanto, acrescenta uma perspectiva diferente à apuração: além dos registros bancários, surge o depoimento de alguém que afirma ter participado diretamente de parte dessas transferências.

A relação com Flávio Bolsonaro

O financiamento do filme já estava no centro das atenções antes da homologação da delação.

Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões, equivalente a cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para a produção de “Dark Horse”. Documentos e mensagens divulgados anteriormente indicaram que pelo menos parte desse valor foi efetivamente transferida.

Em setembro, documentos analisados em reportagens também apontaram que o volume de recursos transferidos para o projeto teria ultrapassado os valores inicialmente conhecidos. Um repasse de US$ 1,6 milhão identificado em setembro de 2025 elevou a estimativa para US$ 12,3 milhões, ou aproximadamente R$ 63,7 milhões na cotação atual.

Flávio Bolsonaro afirma que os recursos destinados ao filme eram privados e já declarou que eventuais esclarecimentos adicionais sobre a produção devem ser prestados pela produtora.

Com a delação de Freixo Júnior, a investigação passa a contar também com um relato interno sobre a operação financeira que levou parte desses recursos ao fundo americano.

Por que a homologação é relevante

A decisão de Mendonça muda o status processual das informações apresentadas por Freixo Júnior. A colaboração deixa de ser apenas uma proposta negociada entre o investigado e a Procuradoria-Geral da República e passa a produzir efeitos dentro da investigação após a análise judicial sobre sua validade e voluntariedade. Freixo Júnior havia prestado depoimento no dia anterior à homologação e confirmou que aderiu voluntariamente ao acordo.

A partir daí, caberá aos investigadores verificar quais pontos do relato encontram correspondência em provas independentes. Esse procedimento é especialmente importante em delações premiadas porque a palavra do colaborador precisa ser corroborada por outros elementos para sustentar eventuais responsabilizações.

O acordo também não se limita aos recursos relacionados ao filme. Freixo Júnior teria fornecido informações sobre outras operações financeiras e pagamentos a políticos, mas os nomes e detalhes permanecem sob sigilo.

Ver publicação no Instagram

Investigação entra em uma nova fase

A colaboração de Freixo Júnior é apontada como a segunda delação relacionada às investigações do Banco Master. A primeira foi firmada com João Carlos Mansur, ex-controlador da Reag Investimentos.

O efeito mais importante da nova delação, neste momento, é ampliar a possibilidade de cruzamento entre depoimentos, transferências internacionais, empresas utilizadas nas operações e os beneficiários finais dos recursos.

É esse cruzamento que poderá determinar se as informações apresentadas por Freixo Júnior apenas confirmam movimentações já identificadas ou se revelam novas conexões dentro da investigação.

Até que essa verificação seja concluída, não há base para tratar as declarações do colaborador como comprovação definitiva de irregularidades por parte de terceiros eventualmente citados.

Compartilhe:WhatsAppFacebook
Redação Correio Rio

Matérias publicadas pela redação do Correio Rio

Ver todas as matérias →

Leia também