Mendonça leva ao plenário do STF caso das mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes
Decisão coloca no plenário da Suprema Corte a discussão sobre os elementos reunidos pela PF e a possibilidade de abertura de investigação envolvendo Alexandre de Moraes

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), liberou neste domingo (6) para julgamento em plenário o caso envolvendo mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro a um número associado ao ministro Alexandre de Moraes. A partir de agora, caberá ao presidente da Corte, Edson Fachin, definir como e quando o caso será analisado pelos demais ministros.
A decisão coloca no centro do plenário uma das questões mais delicadas da crise que envolve o STF e os desdobramentos do caso Banco Master: o que fazer diante dos elementos encontrados pela Polícia Federal e, principalmente, se há base jurídica para abrir uma investigação envolvendo um integrante da própria Corte. Até o momento, não há decisão do STF que tenha concluído pela prática de crime por Moraes.
O que Mendonça está levando ao plenário
O caso começou a ganhar nova dimensão depois que uma análise da Polícia Federal no celular de Vorcaro identificou mensagens enviadas a um contato associado a Moraes. Segundo as informações divulgadas, foram identificadas 52 mensagens, algumas delas relacionadas à situação do Banco Master e a investigações que atingiam o banqueiro.
Entre os conteúdos identificados pela PF estão mensagens nas quais Vorcaro teria buscado orientação sobre sua situação e perguntado, inclusive, se deveria deixar o país antes de ser preso. Também aparecem pedidos de encontros com o ministro.
Um ponto relevante é que parte das mensagens foi enviada pelo recurso de visualização única do WhatsApp. Com isso, a PF não conseguiu recuperar, em determinados casos, eventuais respostas de Moraes. A existência das mensagens enviadas por Vorcaro, portanto, não comprova, isoladamente, que Moraes tenha respondido aos pedidos, atendido às solicitações ou interferido nas investigações.
Por que o plenário do STF entra agora no caso
Mendonça defendeu que a análise dos elementos deveria ocorrer de maneira pública e pelo plenário da Corte. Em manifestação anterior, o ministro afirmou que o colegiado seria a instância adequada para examinar tecnicamente as evidências apresentadas pela PF.
A questão ganhou peso porque qualquer eventual investigação contra um ministro do STF envolve regras específicas de competência e foro. O debate, portanto, não se limita ao conteúdo das mensagens, mas alcança também os limites da atuação de um ministro quando a apuração envolve outro integrante da própria Corte.
Com a liberação para julgamento, a discussão deixa de ficar restrita ao gabinete do relator e passa a depender de uma decisão institucional do Supremo.
PGR questionou a forma como o relatório foi produzido
A Procuradoria-Geral da República, comandada por Paulo Gonet, contestou a condução da apuração. A PGR pediu a anulação do relatório da PF e questionou a possibilidade de Mendonça determinar diretamente diligências envolvendo outro ministro do Supremo sem prévia provocação do Ministério Público ou autorização do plenário.
A posição da PGR é um dos elementos que deverão pesar na discussão. O caso, portanto, envolve duas questões diferentes: o conteúdo das mensagens e a própria validade jurídica da maneira como as informações foram obtidas e encaminhadas.
Moraes também reagiu contra Mendonça
A crise interna se agravou depois que Moraes pediu a abertura de investigação contra Mendonça, atribuindo ao colega possíveis irregularidades na condução de apurações. As acusações apresentadas por Moraes são, até o momento, alegações e não representam uma conclusão definitiva do STF sobre eventual responsabilidade de Mendonça.
O embate colocou dois ministros da Corte em posições opostas dentro de uma disputa que envolve justamente os mecanismos de controle do próprio Supremo.
O contrato de R$ 131 milhões também aparece no caso
As informações reunidas pela PF também trouxeram à discussão um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Segundo reportagem da Folha, a análise do celular de Vorcaro identificou registros relacionados ao contrato, incluindo a informação de que Moraes teria feito edições no documento antes da assinatura. O escritório afirma que o ministro foi consultado apenas para verificar eventual existência de impedimentos legais à contratação e nega irregularidades.
A existência do contrato, por si só, não comprova crime ou favorecimento ilícito. O ponto passou a integrar o conjunto de informações que alimentam a crise política e institucional em torno do Banco Master.
Fachin terá a palavra sobre os próximos passos
Com Mendonça liberando o caso para julgamento, a decisão sobre a tramitação agora está nas mãos de Edson Fachin, presidente do STF. Ainda não havia data definida para a análise do plenário nas informações divulgadas neste domingo.
O plenário poderá ser chamado a discutir os elementos apresentados pela PF, a validade da atuação de Mendonça e a possibilidade de abertura de investigação envolvendo Moraes, conforme o objeto que for efetivamente submetido ao colegiado.
O episódio coloca o Supremo diante de uma situação institucional incomum: a Corte terá de avaliar elementos que atingem um de seus próprios ministros enquanto outro integrante do tribunal é responsável pelo encaminhamento do caso.
Mais do que o destino de uma investigação específica, o julgamento poderá estabelecer os limites para futuras apurações envolvendo ministros do STF e definir como a Corte pretende lidar com situações em que interesses institucionais, relações pessoais e investigações criminais se cruzam.
O que está em jogo
A decisão de Mendonça não significa que Alexandre de Moraes esteja sendo considerado culpado de qualquer crime, nem que uma investigação contra o ministro já tenha sido definitivamente aberta. O que existe neste momento é uma disputa sobre a validade e o encaminhamento dos elementos reunidos pela PF.
O próximo capítulo dependerá de Fachin e, posteriormente, dos demais ministros do Supremo. A expectativa em torno do julgamento decorre justamente do fato de que o plenário terá de analisar não apenas as mensagens atribuídas a Vorcaro, mas também os limites institucionais da própria Corte.


